sábado, 13 de novembro de 2010

entendi*

   O clima estava meio estranho desde que aquela conversa aconteceu. Não é, nem de longe, a pior conversa dessa história, mas não foi, nem de perto, a melhor. Eu procurava seus olhos, que fugiam dos meus. Tudo parecia meio incômodo. Os meninos de rua com latinhas nas mãos. A fila que não andava. O dedo sem aliança - eu não conseguia parar de olhar. Sem falar que eu tava com uma puta fome. Então, como sempre, pra aliviar a tensão do momento, pus-me a te observar.

    - Nossa, para, você tá me olhando demais.

   Ok. Não olho mais. Vou continuar olhando esses sanduíches todos e admirando meu estômago tocar a 9ª Sinfonia. Enquando você, louca pra me beijar, finje que não não notou minha, deplorável e sonelenta, presença.

  - Vai querer de quê?
  - O de sempre, pra variar. Ah, mas sem tomate.

   Pediu, direitinho. Sabe de cór minhas preferências, escolhas. Sabe que ia pedir suco de goiaba e o fez por mim. Pagou a conta. Aí é demais. Mas eu trouxe os alargadores, não vou cobrar. Mais um presente pra você. Não consigo parar. Detalhe: compramos o mesmo sanduíche, a mesma bebida, sentamos na mesma mesa. Casal de décadas, aparentemente. E depois de executar todas nossas manias, finalmente comemos. Arrumei a bandeija, limpei sua meleca de sempre, o canto da sua boca, sua calça. Gosto do jeito que você mastiga..


  - Nossa, para de me olhar. 


   Ok. Mais uma vez. Melhor ficar calada. Eu realmente gosto de te ver mastigar. A única pessoa que fica bonita mastigando, nunca vi outra. 


  - Ah, te trouxe brigadeiros. Não ficaram bonitos, acho que errei o ponto. 
  - Brigada, pelo menos foi de coração né.
  - É..

Silêncio por alguns minutos. Tentei não mais olhar.


  - Vamos ouvir música? - disse com a cabeça encostada no meu ombro e olhando minha boca.
  - Vamos, qual?
  - A nossa.
  - Qual?
  - A que você quiser.


  Não é nossa, mas vamos aliviar. Novos Baianos. É bom demais.


   - Queria te beijar.
   - Ok, entendi tudo.








         "Ao menos leve uma certeza: você me deixa doído
Mas só não me deixará doido, 
porque isso sou.
Isso já sou."

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