Doera, finalmente. A ferida que estava antes adormecida, ardeu como fogo. Uma dor ácida, incômoda, cortante. Haveria mesmo de doer. Uma parte arrancada, mutilada, amputada. E, de dor em dor, fui perdendo o ânimo, as forças, o sorriso, a melodia. Larguei o violão, a gaita, meus livros e discos. Passei a perder o sono, o apetite. Enfraqueci. Com as mãos atadas e olhos vendados me joguei. Me joguei nesse abismo chamado eu. Pus-me pra dentro de mim mesma e cá ficarei. Horas, dias, meses. Sou, agora, minha inimiga íntima. Batalha travada entre eu e mim mesma. E essa eu vou ganhar fácil. Vou desligar o celular, a luz, o relógio e tudo que possa me lembrar de viver. Apertei o stop dos sonhos. A garota agora vai ser doida, sem ser triste. Eu tive fome, uma vez. Deixei pela metade o ultimo desenho. Fui até a geladeira, mordi um pedaço de pizza gelada. Duas mastigadas foram o suficiente pra colocar tudo pra fora. Não quero comida, nem água, nem sol. Quero dormir. Mesmo sem sono. Cá estão minhas pílulas, meus devaneios guardados em cápsulas. Minha caneca amarela e, bem, o pouco de vida que ainda resta nesse quarto. E que não haverá amanhã com tanta intensidade. Me desmanchei. Ah, e não foi pela perda. Foi pela falta. A falta que destruiu o meu castelo de sonhos. Acabou. Acabei.
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