Meu bem, não faça isso com meu pobre coração. Coração esse que de tão rico ficou pobre, assim, de marré marré marré. É saudade, é vontade, é a necessidade. É mais que carne, meu bem: isso é da alma. Já te pedi que viesse desarrumar meu lençol, regar minhas plantas, me acordar pela manhã. Te pedi que reparasse nos meus olhos milimetricamente estrábicos. Te pedi que conhecesse meu perfume, que conhecesse meus sabores, meus beijos, meu corpo. Te entreguei a alma minha, pra que conhecesses de cór. Pois não me conheço mais. Conheço unicamente o que tem sofrido esse pobre coração aqui. Então não faça isso. Não fique tão longe. Onde minha visão não alcança tua imagem. Me abrace forte ou suma. Suma pra bem longe e pra sempre. E leve toda essa agonia chamada ausência, que tem tirado nossos sonos, amarelado nossos sorrisos e, por várias vezes, mandado pra longe a esperança de novos dias. Por isso, meu bem, fique bem perto, bem perto, pertinho mesmo. E não permita que meu coração fique tão pobre, tão triste, tão seco, tão frio, tão morto. Ponha nossa música pra tocar, pode ser aquela mesmo, a mais antiga. Ou traga um vinho barato e seu corpo pra dançar uma melodia triste numa noite chuvosa. Pode ser Piaf. La vie en Rose. Vamos dançar em pura simetria. Mas sem ensaios. Sintonia. Deixando-nos levar por breves pensamentos, devaneios, delírios de álcool e paixão. Feito bolhas de sabão. Soltas. Estaremos tortas em meio a meias palavras, sem perceber. Meio indecentes. Estaremos discretas pensando na insegurança de todo fim, de todo começo. Mas não precisa se arrumar. Nem salto, nem maquiagem. Quando amanhecer estaremos de volta ao início. Nuas e cruas.
desenhei uma noite de L e T,

Nenhum comentário:
Postar um comentário